A discussão sobre as IAs sempre costuma envolver dois polos (como muita coisa no Brasil). De um lado, há quem acredite que a IA vai substituir todas as profissões, e do outro, achando que elas são algo efêmero. A realidade, como sempre, é algo mais sem graça e cinza no meio desses dois caminhos.
A IA já venceu em produção, isso é fato, mas não venceu em outros cenários: decisão, responsabilidade e intuição. Compreender isso é fundamental para qualquer pessoa que queira construir uma carreira nos próximos anos.
A produção, como todos devem saber, é o ato de executar pedidos. Criar posts, editar imagens, montar layouts, mockups, construir dashboards, desenhar wireframes, escrever textos… Esse tipo de trabalho passou a ser abundante porque pode ser descrito em poucas palavras para uma IA, que será executada e impressa na tela em questão de segundos. Obviamente precisará ser refinado, mas ainda será muito mais rápido e barato do que fazê-lo manualmente. E o mercado capitalista é claro: se a oferta é grande, o preço é baixo. Não estou falando de qualidade, até porque muitas entregas de IA têm nível júnior ou até inferior, a questão é outra. A questão é: se o que a IA já gera atende o mercado, então o mercado está satisfeito.
Tentar competir com uma máquina é insanidade. O maior enxadrista do mundo não é capaz de ganhar de uma máquina desenvolvida especificamente para jogar xadrez. Um operário de uma fábrica nunca será mais eficiente do que uma máquina que trabalha no escuro, 24 horas por dia, 7 dias por semana. É a brutal lógica do mundo real.
O que resta a nós, humanos? Usar o que temos de melhor: a criatividade, a capacidade de pensamento abstrato, a intuição; todas essas são ferramentas que IA alguma será capaz de replicar. Afinal, máquinas não entendem o conceito de razão e emoção, uma máquina nunca precisará se preocupar em entregar o melhor possível pois depende daquele salário para comprar a comida de seus filhos. Empresas… empresas não são bobas, elas visam o lucro, é claro, mas produção não é a única maneira de aumentar o lucro; empresas precisam reduzir riscos, acelerar decisões corretas, proteger o valor da marca, e até em certos casos, de pessoas para “assumir a bucha” quando tudo vai pro vinagre. E onde quero chegar com isso? Todo trabalho hoje pode ser entendido em três níveis.
O primeiro é produção, esqueça-o, you have no power here! (Lembrou do Gandalf, é?)
O segundo é direção: decidir o que deve ser feito.
O terceiro é responsabilidade: responder pelas consequências das decisões.
Acredito que agora está óbvio onde você deve focar seus pontos, certo? Decisão e responsabilidade são os cernes que os humanos devem dominar.
No design gráfico, por exemplo, criar uma arte isolada, ajustar um layout ou gerar um post são atividades claramente pertencentes ao nível de produção. A IA já faz isso com uma bela capacidade, que tende a aumentar cada vez mais. O valor humano aparece quando se define identidade visual, posicionamento de marca, sistemas de design e coerência estética ao longo do tempo. Não se trata de “vou fazer um postzinho”, mas decidir como uma marca se apresenta ao mundo. A IA pode gerar dezenas de opções. Quem escolhe o caminho, quem decide, é o humano.
Em UX acontece algo semelhante. Desenhar telas, montar wireframes e protótipos são tarefas cada vez mais automatizáveis. O trabalho verdadeiramente valioso está em definir qual problema merece ser resolvido, priorizar fricções, decidir trade-offs e sustentar essas decisões diante de pressões de negócio, tecnologia e prazos. UX não é desenho de interface, é arquitetura de decisão.
Na análise de dados, escrever consultas, montar gráficos, criar dashboards também caminham para uma automação acelerada. O diferencial humano está em formular perguntas corretas, entender profundamente o problema, ter intuição e bagagem tanto estatística quanto cultural para saber se o que você está vendo ali realmente representa a vida real.
Empresas continuam pagando humanos, mas por quê? Por serem boazinhas? Apenas uma criança pensaria nisso. Empresas pagam humanos porque erros custam caro. Uma campanha errada gera crise, um fluxo ruim derruba conversão, uma métrica mal definida, dados não muito bem higienizados orientam decisões errôneas. E se isso acontece, adivinhe quem paga o pato? Quem será mais cauteloso? Sam Altman? Não, será você, meu caro leitor. Você sempre será mais cauteloso, mais questionador e responsável (ou deveria ser) do que a IA. Esse comportamento reduz risco, e menos risco significa mais lucro, eis o capitalismo satisfeito.





